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| O SUICÍDIO NA
ANÁLISE PSICODRAMÁTICA |
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DINÂMICA
DO SUICÍDIO
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O suicídio
é um dos temas que mais angustiam os terapeutas.
Sempre que aparece o tema suicídio, durante a psicoterapia,
ele deve ser encarado como soberano, isto é, deve
ter prioridade sobre todos os outros.
Mesmo quando é evidente que a ameaça de
suicídio é apenas para chamar a atenção,
deve-se levar a sério, pois quem utiliza a ameaça
à vida como forma de apelo é porque sente
uma urgência muito grande em receber atenção
ou já tem tão pouca credibilidade que este
é seu último recurso.
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| Na Análise Psicodramática
consideramos quatro temáticas de suicídio: |
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A) Por opção.
O suicídio como forma de abreviar uma morte sofrida,
e a opção é morrer ou morrer, na
verdade a opção é a forma de morrer,
pois a morte é inevitável, restando apenas
à opção de abreviar o sofrimento.
É o que ocorre com alguma freqüência
com doentes terminais, ou situações de guerra,
em campos de concentração onde o suicídio
evita uma morte por execução, por tortura
ou outras formas dolorosas e humilhantes. Não podemos
encarar essa situação como fruto de uma
dinâmica neurótica, mas sim como uma opção,
muitas vezes, até de preservação
frente ao sofrimento.
B) Histérico.
O suicídio como forma de chamar a atenção
sobre si mesmo. O indivíduo ameaça ou até
mesmo tenta o suicídio como forma extrema de convencer
as pessoas (família, cônjuges, namorados,
etc.) de que realmente precisa de atenção
e ajuda. É um pedido de socorro, encontra-se em
miséria afetiva, sem recursos. É uma forma
muito ruim de pedir ajuda, pois acaba despertando raiva
e não compaixão nas pessoas, que acabam
por se sentir usadas e manipuladas. Na verdade não
é um desejo de morte, mais de ajuda, e deve ser
encarado como tal durante a terapia.
C)
Por rompimento de vínculos compensatórios.
Quando há o rompimento do vínculo compensatório
o indivíduo não tem vontade de se matar,
mas um profundo desejo de morrer. Faz emergir a vivência
do clima inibidor incorporado na fase cenestésica
do desenvolvimento psicológico (do intra útero
até dois anos e meio). Esse clima é vivido
em qualquer época, tal qual foi vivido enquanto
bebê. Portanto é carregado da sensação
de sem saída, de profunda impotência e desamparo,
de sensação de morte e de grande desespero.
É mais
raro a tentativa real, pois a tendência é
de se restabelecer o vínculo simbiótico
com outro objeto, seja ele pessoa ou coisa (comida, bebida,
droga, cigarro etc.) ou até mesmo crenças
religiosas e ideológicas.
É maior o risco de sofrer acidentes do que realmente
se matar. O instinto se sobrevivência fica comprometido
pelo desejo de morte, o desespero do cliente nessa fase
é muito grande e deve se tomar as medidas de continência
frente ao suicida e, além de medicação
e psicoterapia.
D)
Dinâmica assassino x vítima.
É o suicídio decorrente de uma dinâmica
conflituosa de mundo interno. É decorrente de uma
divisão interna do tipo acusador/acusado em que
o lado acusador se transforma em assassino e o lado acusado
se transforma em vítima. Assim, de uma dinâmica
acusador/acusado passa-se para uma dinâmica assassino/vítima.
Encaramos essa situação como a mais grave
dentro das dinâmicas suicidas.
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| RISCO DE SUICÍDIO
- DINÂMICA ASSASSINO X VÍTIMA |
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O suicídio é um assassinato em que uma parte
do indivíduo mata a outra parte dele. São
tantas as formas de suicídio que exigiriam um estudo
específico para tentar uma sistematização.
Há suicidas que quer matar a cabeça (pensamentos),
coração (emoção), estômago
(necessidade de receber algo), pulmão (necessidade
de expansão) ou então atitudes como dormir,
voar, mergulhar, queimar etc. Em todos, acaba por estar
presente uma divisão interna em que uma parte atenta
contra a outra. Isso configura um conflito no mundo interno
e consequentemente surge uma angustia patológica.
A divisão
interna tipo acusador/acusado é uma dinâmica
comum a todos os indivíduos. Todos passamos, com
freqüência, por situações em
que nos acusamos de algo, e nos defendemos de nossa própria
acusação. Na dinâmica de mundo interno
o acusador aponta uma série de falhas e o acusado
se defende. Essa dinâmica não oferece nenhum
risco de suicídio.
A dinâmica assassino x vítima se instala
quando o acusado concorda com o acusador. Nestes casos
a divisão interna se transforma em uma divisão
interna compactuada.
Na divisão
interna compactuada o conflito entre acusador x acusado
deixa de existir, pois ambos estão cúmplices.
Desta forma a angustia patológica deixa de existir.
A dinâmica assassino/vítima, presente no
mundo interno, não evidencia por si só um
risco de suicídio. O risco de suicídio deve
ser avaliado pelo grau de afetos mobilizados, situação
real do conflito e grau de autocontinência e de
continência externa desse indivíduo.
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| AUTOCONTINÊNCIA |
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A autocontinência é a capacidade que o indivíduo
tem de conter dentro de seu próprio mundo interno
seus conflitos e a angustia patológica deles resultante.
É medida pela relação entre a parte
sadia e a parte doente do indivíduo. Quanto maior
a parte sadia em relação à parte
conflitada (doente), maior passa a ser a autocontinência.
Frente a uma divisão interna pactuada, o conflito
aparentemente desaparece e também a angustia patológica.
Nesse caso a autocontinência está seriamente
prejudicada, pois a "parte sadia" e "parte
doente" ou, assassino e vítima estão
de acordo.
Lembramos que o instinto de sobrevivência fica localizado
na parte sadia. Uma vez que a autocontinência está
prejudicada precisamos lançar mão da continência
externa.
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| CONTINÊNCIA EXTERNA |
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A continência externa diz respeito ao amparo do
que está interno no indivíduo. É
sua matriz familiar, sua matriz social, as instituições
da sociedade e a própria relação
terapêutica.
Na medida em que o terapeuta não pode mais confiar
na autocontinência de seu cliente ele necessita
orquestrar uma continência externa.
Nos casos de risco de suicídio a continência
dada pela relação terapêutica é
insuficiente.
A continência externa deve ser organizada pelo terapeuta
com: familiares, amigos e hospital.
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A)
Hospitalização
A internação num hospital psiquiátrico
é a forma mais segura de se evitar o suicídio
quando o risco é alto e, ela deve ser mantida até
que o risco seja controlado por meio de medicação
ou de trabalho psicoterápico. É conveniente
lembrar que o hospital clínico não está
aparelhado para lidar com pacientes suicidas, nem em nível
do corpo de enfermagem nem das instalações
físicas (janelas com grades, acesso a objetos contundentes
e cortantes, possibilidade de isolamento etc.) No hospital
psiquiátrico, por pior que seja o ambiente, a enfermagem
é mais especializada e as instalações
são mais adequadas, diminuindo assim a possibilidade
de uma tentativa de autodestruição
B)
Continência dentro da estrutura familiar
Consiste em delegar aos familiares a vigilância
e o acompanhamento do cliente enquanto ele estiver sob
o risco de suicídio. É o tipo de continência
mais aceito tanto pelos clientes como pelos familiares.
Existe certo risco à medida que a dinâmica
interna assassino/vítima tem origem na incorporação
das figuras da matriz de identidade (família de
base) e também, com muita freqüência,
na família atual existe um representante identificado
com a dinâmica assassino/vítima. As pessoas
da família estão frequentemente envolvidas
nessa dinâmica, perdendo assim, a isenção
no julgamento dos procedimentos para com o cliente. Muitas
vezes, o acusador pode estar ligado a figuras da família
de base, como pai, mãe, irmãos etc. ou projetados
na família atual, como esposa, marido etc. É
importante ter a consciência que existe certo risco
ao se delegar às famílias o acompanhamento
de clientes potencialmente suicidas.
C) Continência dentro
da estrutura social
É um dos recursos a ser utilizado quando o risco
é eminente e a família tem pouca disponibilidade
(distância, impossibilidades reais ou mesmo emocionais)
e quando a internação é dificultada
por falta de pessoas que possam se responsabilizar, inclusive,
por aspectos financeiros, infra estrutura, etc.
A continência com os amigos, em termos dinâmicos,
é mais benéfica, pois raramente está
associada à dinâmico assassino/vítima.
Entretanto, o empenho e as possibilidades de vigilância
são bastante prejudicados. Enfim deve-se utilizar
a continência disponível, que nem sempre
é a ideal.
A medicação antidepressiva pode ser enquadrada
como uma forma de melhorar a autocontinência do
individuo. Pode e deve ser utilizada em casos de riscos
de suicídio. E necessário cuidado na utilização
dos antidepressivos, pois, alem de demorar certo tempo
para fazer efeito (de 7 a 15 dias), ele restabelece o
pragmatismo (capacidade de ação) antes de
restabelecer o humor, criando uma situação
de pragmatismo ativo e humor deprimido. É uma situação
muito perigosa e aumenta o risco de suicídio. O
cliente aparenta estar melhorando e, assim, engana tanto
os familiares quanto a própria equipe de enfermagem.
A melhora é da capacidade de ação
e não do humor. É o momento em que a vigilância
deve ser redobrada e não relaxada, como se faz
muitas vezes.
Ao mesmo tempo em que se reorganiza a continência
externa e ministram-se antidepressivos, o terapeuta deve
trabalhar psicodinamicamente com o cliente. O medicamento
é apenas um paliativo e não desmonta a dinâmica
suicida, apenas afasta a situação de risco.
Uma vez detectado o risco, cabe ao terapeuta:
" Restabelecer,
de maneira artificial, a continência externa até
que possa desmontar, com trabalho psicoterápico,
a dinâmica suicida;
" Identificar e trabalhar, psicoterapicamente, a
dinâmica assassino/vitima desmontando a divisão
interna compactuada e restabelecendo o conflito e a angustia
patológica.
" Medicar (se necessário).
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| DINÂMICAS SUICIDAS
COMPENSADAS |
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As dinâmicas
suicidas estão, na maior parte das vezes, compensadas
nas formas de relacionamentos que envolvem o indivíduo
suicida. Quando essas compensações são
rompidas de forma mais ou menos bruscas, podem desencadear
o risco de suicídio ou até mesmo a tentativa,
muitas vezes de forma imprevista. Elas desencadeiam um
tipo específico de raiva na relação
que chamamos de raiva assassina. É uma raiva sentida
nas mãos (vontade de bater, machucar).
As dinâmicas
compensatórias na Análise Psicodramática
são as seguintes:
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A)
Projeção no outro da parte assassina
Consiste em projetar, em um elemento de mundo externo
(marido, mulher, chefe, sócio, amigo etc.), a parte
do mundo interna identificada com o assassino. Com isso,
passamos a ter uma relação acusador/assassino
x acusado/vítima, em que o acusador/assassino está
fora, projetado em outra pessoa, e o acusado/vítima
está localizado no próprio indivíduo.
Como exemplo poderá ter a seguinte situação
hipotética: João casa-se com Maria que é
extremamente agressiva, acusadora e tem ímpetos
de matá-lo etc. Em vez de João ser seu próprio
assassino tem em Maria um complementar que o humilha,
agride, mas que, de alguma forma, é mais seguro
do que ter o agressor em nível interno. Assim,
o freio que impede uma tentativa suicida de João
não está mais em suas mãos, mas nas
de Maria. Portanto, ao encontrar relações
de tirania e humilhação, em que uma pessoa
se submete sem muita indignação ou revolta
à outra, pesquise a possibilidade de existir, nessa
relação, uma dinâmica suicida compensada.
Desta forma o que seria uma divisão interna assassino/vítima,
passa a ser uma divisão interna externalizada com
o lado assassino projetado no outro. O rompimento brusco
desta dinâmica pode internalizar a divisão
assassino/vítima e desencadear uma atitude suicida.
B)
Projeção no outro da parte vítima
Aqui a situação é contraria à
anterior, quando se projeta a parte vítima para
alguém no mundo externo (marido, mulher, subordinado,
empregados, namorados etc.). Dessa forma teremos o cliente
exercendo a função acusador/ assassino em
relação a alguém que passa a exercer
a função de acusado/ vítima. No caso
hipotético de João, ele pode se casar com
uma mulher, Amélia, que ele passaria a tiranizar,
humilhar, agredir, e ter ímpetos de matar. Com
isso estaria projetando sua parte vítima para Amélia.
O risco de suicídio de João fica evitado.
O rompimento brusco de uma relação desse
tipo pode trazer a parte vítima projetada para
o mundo interno de João, e estabelecer à
dinâmica assassino/vítima internalizada com
o conseqüente risco de suicídio. Desta forma
o que seria uma divisão interna assassino/vítima,
passa a ser uma divisão interna externalizada com
o lado vítima projetado no outro.
C)
Acorbertamento por alguém do mundo Externo
Nesse caso, a dinâmica acusador/assassino e acusado/vítima
continua internalizada, mas se estabelece algum tipo de
relação simbiótica no mundo externo,
que ampara, acoberta e justifica a parte vítima
do cliente.
Desse modo, apesar das acusações internas,
ele passa a ser justificado por alguém no mundo
externo que pode ser marido, mulher, namorado (a), amigos,
chefes, subordinados etc. No exemplo de João, ele
pode se casar com Ana, que de alguma forma o ampara, justificando
e acobertando seus fracassos e incompetência. O
acobertamento externo, frequentemente, não impede
o surgimento da dinâmica suicida, como no caso das
projeções externas, mas impede que se consuma
a tentativa de autodestruição pela proteção
que este elemento promove.
Outra forma consiste na relação que se estabelece
com a religião, grupos fanáticos, ideologias
etc.; que muitas vezes acabam por fazer as funções
de acobertamento na dinâmica acusador/assassino
versus acusado/vítima.
O rompimento na relação de acobertamento
cria uma situação de vulnerabilidade no
cliente frente a sua dinâmica de mundo interno,
podendo levá-lo ao risco de suicídio.
Desta forma a divisão interna assassino/vítima
permanece no mundo interno do indivíduo anos, tamponada
por uma relação de apoio incondicional de
alguém do mundo externo que sempre acoberta e justifica
seus erros.
Nesses três exemplos encontramos sempre alguma pessoa
que está carregando a função de assassino,
vítima ou acorbetadora frente à dinâmica
interna do cliente. Essas pessoas sentem-se sobrecarregadas
e têm uma sensação de que a vida do
outro está sempre em suas mãos. E muitas
vezes pode estar mesmo, pois o rompimento da relação
pode levar à ativação de dinâmica
suicida.
Por mais desagradável que sejam essas relações,
o indivíduo acaba se submetendo a elas, porque
sabe, intuitivamente, que elas o protegem.
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| Bibliografia: |
Dias, Victor R. C. Silva
|
| Sonhos e psicodrama interno
na análise psicodramática/ Victor R. C. Silva
Dias - São Paulo: Ágora, 1996 |
Psicopatologia e psicodinâmica
na análise psicodramática, volume I/ Victor
R.C. Silva Dias - São Paulo: Ágora, 2006
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