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| O MANEJO DOS SENTIMENTOS
NA ANÁLISE PSICODRAMÁTICA |
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Os sentimentos
estão presentes durante todo o processo de uma
psicoterapia. Não podemos falar do ser humano sem
falar de seus sentimentos. Ao falarmos de psicoterapia,
estamos falando de algum tipo de tratamento, e quando
falamos em manejo de sentimentos, estamos falando algo
a respeito de tratar os sentimentos. Embora os sentimentos
façam parte inerente do ser humano e de seu psiquismo,
eles frequentemente necessitam de algum tipo de procedimento
psicoterápico. Pois, seja pela ação
da moral ou por estarem vinculados com psicodinâmicas
patológicas eles necessitam serem tratados.
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| Algumas premissas básicas
dentro da Análise Psicodramática: |
Todos
os sentimentos são humanos e todos nós
nascemos com a capacidade de sentir todos eles, em outras
palavras: "eles vêm de fábrica".
Todos os sentimentos são ou
foram importantes para a vivência e para a sobrevivência
da nossa espécie. Portanto não aceitamos
que existam sentimentos bons ou sentimentos maus, mas
sim, sentimentos mal administrados.
Dessa forma, os sentimentos
nunca são patológicos na sua essência.
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Eles podem ser encarados
como patológicos quando:
Eles estão francamente em confronto, com
valores morais de uma determinada sociedade, num determinado
tempo, de uma determinada época.
Eles estão misturados com angústia
patológica.
Eles estão vinculados com psicodinâmicas
patológicas.
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| SENTIMENTOS E VALORES
MORAIS |
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Entendemos
como moral o conjunto de normas que regem o comportamento
e os procedimentos de uma população, num
determinado tempo, de uma determinada era e numa determinada
cultura.
Esse conjunto
normativo é variável, para as épocas,
e para as culturas. São veiculadas pelas famílias,
escolas, meios de comunicação e durante
os últimos seis mil anos foi ditado basicamente
pelas religiões. Nos tempos atuais, a religião
ainda tem o papel mais importante na veiculação
desse código moral.
Com o advento do Deus único das religiões
monoteístas, em substituição dos
inúmeros Deuses das religiões panteístas,
o código normativo moral também se tornou
único.
Esse código moral único, entre outras coisas,
acabou por separar os sentimentos em: sentimentos bons
e sentimentos maus. Dessa maneira os sentimentos bons
deveriam ser estimulados, e considerados como virtudes,
ao passo que os sentimentos maus deveriam ser reprimidos
considerados como pecados e passíveis de culpa.
Dessa
forma, os sentimentos ganharam um valor moral e foi se
perdendo o valor essencial do próprio sentimento.
O valor essencial do sentimento é a sua verdadeira
função na vida, na sobrevivência e
nas relações do ser humano, sem a interferência
dos ditames legais.
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Esse rótulo moral, agregado ao sentimento, passou
a definir e qualificar o próprio sentimento e se
perdeu a noção da função básica
destes sentimentos dentro da vivência e da sobrevivência
da espécie humana.
Qualquer desses sentimentos (bons ou maus) não
é patológico pelo seu valor essencial. Ele
pode se tornar patológico, e necessitar de procedimento
psicoterápico na medida em que não for bem
administrado o conflito resultante entre o valor moral
e o valor essencial.
Os
sentimentos se tornam patológicos quando entram
em conflito: seu valor moral com seu valor essencial.
Tomemos como exemplo alguns
sentimentos assim rotulados:
Egoísmo:
Valor moral - mau
Valor essencial: é um sentimento de auto proteção.
Se o indivíduo não cuidar de seus próprios
interesses ele acaba sendo espoliado.
Mesquinhez/usura:
Valor moral: mau
Valor essencial: é também um sentimento
de autoproteção. Se o indivíduo não
cuidar de seus bens materiais e tiver um controle sobre
eles, acaba sendo espoliado.
Vingança:
Valor moral: mau
Valor essencial: é um sentimento ligado ao respeito.
Se o indivíduo não dá o troco quando
é agredido ele acaba sendo invadido e desrespeitado.
"Só se respeita cachorro que morde".
Ambição:
Valor moral: mau
Valor essencial: ligado à procura do sucesso e
de ser bem sucedido, de lutar para conseguir seus objetivos.
De ter, "garra", na vida.
Vaidade:
Valor moral: muitas vezes negativo
Valor essencial: é ligado a auto-estima. É
necessário se gostar e se admirar para se auto-valorizar.
Interesse:
Valor moral: mau
Valor essencial: é ligado à capacidade política.
A política é a arte de identificar e conjugar
interesses. Para ser bem sucedido, numa comunidade, é
necessário ter capacidade política, traçar
e escolher alianças.
Prepotência:
Valor moral: mau
Valor essencial: é o sentimento ligado à
liderança. O chefe, o líder, o rei, o presidente,
precisam se impor para serem merecedores de crédito
e para o exercício do poder. Por sua vez, a Humildade
(valor moral: bom), mal administrado pode levar um líder
a descrença e ao desrespeito.
Ciúme:
Valor moral: Mau
Valor essencial: é um sentimento ligado as a funções
construtivas. É o zelo, o cuidado com objetos e
com as pessoas amadas. É o cuidado de manter e
preservar relações.
Vergonha:
Valor moral: bom
Valor essencial: é o sentimento do pudor. É
ligado à adequação social. Não
fazer ou apresentar coisas que o desabonem.
Admiração:
Valor moral: bom
Valor essencial: É um sentimento ligado ao aprendizado.
O indivíduo quer copiar e imitar a quem ele admira.
Cobiça:
Valor moral: mau
Valor essencial: É um sentimento ligado ao desejo
de igualdade. Quer ter a mesma coisa que o outro tem.
É identificado com a necessidade de progresso.
Querer ter sempre algo melhor.
Inveja:
Valor moral: mau
Valor essencial: É um sentimento ligado ao inconformismo
e a revolta com as discrepâncias e com as injustiças.
Eu não suporto que ele tenha e usufrua destes privilégios.
Quero destruir essa injustiça. Porque o outro pode
gozar dos privilégios e eu não? Lembremos
que a carga destrutiva da inveja é dirigida ao
prazer de ter as coisas, e não as coisas em si.
Despeito:
Valor moral: mau
Valor essencial: É um sentimento ligado a importância,
a hierarquia das escolhas. Eu não suporto não
ser a pessoa escolhida, ser a pessoa preterida. A descarga
do sentimento de despeito é a pessoa aceitar que
não foi escolhida ou querida e ir procurar quem
a escolha ou queira. O despeito deve ser absorvido pelo
indivíduo preterido. Aceitar o fato de não
ser aceito ou acolhido.
Generosidade:
Valor moral: Bom
Valor essencial: É um sentimento ligado a agregação
e a socialização. Todos querem se aproximar
da pessoa generosa.
Lembramos
que saúde mental é: a capacidade do indivíduo
administrar suas condutas e procedimentos, entre os dois
binômios fundamentais da convivência humana.
Esses binômios fundamentais são: de um lado
o conceito moral do certo/errado, e do outro a parte instintiva
e volitiva de querer/poder. A administração
desses binômios é feita pelo bom senso e
pelo senso de adequação do indivíduo.
Uma repressão do binômio, querer/poder, leva
esse indivíduo a uma submissão aos conceitos
morais e a anulação de suas próprias
vontades. Por outro lado, ignorar o binômio, certo/errado,
leva esse indivíduo a só levar em conta
seus instintos e suas vontades, tornando-o marginalizado
e Inadequado ao convívio social.
É fundamental para a saúde mental, que o
indivíduo administre, utilizando o seu bom senso
e o seu senso de adequação, o conflito entre
o valor moral e o valor essencial dos seus sentimentos
e das condutas a eles vinculadas.
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| EMOÇÕES
REATIVAS NA ANÁLISE PSICODRAMÁTICA |
Damos o nome de emoções reativas, aos
sentimentos que aparecem em uma comunicação
que destoam fortemente do conteúdo dessa mesma
comunicação.
Os exemplos mais comuns
são:
A)
A expressão de raiva no lugar de sentimento real
de tristeza, de medo ou de impotência. O indivíduo
passa a expressar uma raiva, que destoa da raiva verdadeira,
pois, ela vem carregada de algum tipo de angustia ou
ansiedade.
B)
A expressão de alegria no lugar do sentimento
real de tristeza, de inveja, ou de constrangimento,
onde o indivíduo parece e se comporta como muito
alegre (eufórico) para evitar o contato com o
verdadeiro sentimento. Essa alegria vem contaminada
e misturada com uma dose de angústia ou ansiedade.
C)
A expressão de piedade ou pena no lugar de
sentimento real de hostilidade, competição
ou de vingança. O indivíduo se comporta
como pesaroso evitando assim o contato com seus reais
sentimentos. Neste caso a piedade está misturada
com uma dose de angústia ou ansiedade.
Lembremos que os sentimentos, quando em função
reativa, estão misturados com angustia ou ansiedade
patológica.
Dessa forma o sentimento expressado cria um contexto
nessa comunicação que destoa do conteúdo
da mensagem, e encobre o verdadeiro sentimento que,
este sim, será compatível com a mensagem.
Podemos dizer que essa mesma mensagem tem dois significados
dependendo do sentimento que está sendo expresso.
Conforme exemplos acima, a mensagem A pode ser
de raiva e indignação e a mesma mensagem
pode ser de tristeza e de impotência.
A mensagem B pode ser encarada como de alegria
ou de tristeza, e a mensagem C pode ser de pena
e comiseração ou de hostilidade e vingança.
Dessa maneira temos nas situações de emoções
reativas, a seguinte configuração:
1)
Uma mensagem manifesta onde o sentimento expressado
é discordante do conteúdo da mensagem
2)
Uma mensagem latente onde o sentimento encoberto
é compatível com o conteúdo da
mensagem
Dessa forma, a mensagem manifesta encobre a mensagem
latente e o indivíduo não entra em contato
com seus verdadeiros sentimentos.
Lembremos que entendemos
como mecanismos de defesa do psiquismo os sintomas,
condutas e procedimentos que o psiquismo adota de forma
consciente ou não consciente para evitar o contato
entre o EU consciente e o material excluído,
seja ele de 1ª ou 2ª zona de exclusão.
As emoções reativas vão fazer parte
das defesas conscientes que são mecanismos de
evitação de contato com conteúdos
encobertos mas que apresentam um grau variável
de consciência para o indivíduo.
A forma mais eficiente de identificá-los é
a percepção de que: existe uma discordância
entre o sentimento emitido e o conteúdo da fala,
do comportamento ou da situação em questão.
Por exemplo: Uma fala piedosa do cliente, mas com um
conteúdo de "bem feito que isto aconteceu".
Podemos saber que o sentimento reativo é pena
e o sentimento evitado é a hostilidade e vingança.
Podemos dizer que o sentimento
expresso é o manifesto, e o conteúdo sugerido
aponta para o sentimento latente.
A medida que identificamos e clareamos a contradição
entre o sentimento expresso e o conteúdo da mensagem,
e explicitamos a mensagem latente, abrimos um compartimento
de conteúdos evitados para que possam ser trabalhados.
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| SENTIMENTOS VINCULADOS
COM PSICODINÂMICAS PATOLÓGICAS |
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São os chamados de sentimentos patológicos,
onde a patologia está na psicodinâmica que
está associada ao sentimento normal.
O que torna o reconhecimento possível é
que nos sentimentos patológicos existe sempre uma
desproporção entre a intensidade do sentimento
e o estímulo externo. Essa
desproporção acontece por que:
a intensidade do sentimento patológico é
alimentada pela psicodinâmica acoplada, e não
pelo estímulo externo.
Dessa maneira podemos dizer que todos os sentimentos podem
ficar patológicos, dependendo da psicodinâmica
de mundo interno em que estejam vinculados.
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Os sentimentos podem
estar associados a inúmeras psicodinâmicas
patológicas, o que torna praticamente impossível,
uma sistematização. Alguns exemplos mais
freqüentes:
Ciúmes Patológicos:
É o ciúme normal acoplado a uma dinâmica
de triangulação mal resolvida. Existe
uma angustia intensa e desproporcional à realidade,
onde o objeto de amor fica permanentemente ameaçado,
pelo surgimento de um terceiro elemento, que está
na fantasia do ciumento. Dizemos que o terceiro elemento
está na cabeça do ciumento e não
na realidade.
Desta forma, o ciúme e o zelo são sentimentos
normais quando existe uma relação com
um objeto de amor. O que torna o ciúme patológico
é a dinâmica triangular mal resolvida.
O tratamento psicoterápico é resolver
a triangulação, e para isso utilizamos
a técnica da cena triangular, sistematizada especificamente
para essas situações. (vide obra do autor)
Cobiça Patológica:
É a cobiça normal, de querer possuir algo
( objetos, situações, cargos, bens materiais
etc.) igual ao do outro, acoplada a uma psicodinâmica,
onde existe uma permanente desvalorização
dos seus próprios objetos, situações,
cargos, bens materiais etc. Esse desejo de possuir o
do outro, é intenso e desproporcional à
situação real do indivíduo. A intensidade
do sentimento é alimentada pela intensidade da
desvalorização que ele coloca nos seus
próprios objetos, e não no fato, de que
o do outro seja muito melhor que o seu.
Por exemplo, o indivíduo deseja intensamente
ter um carro igual ao do vizinho embora ele mesmo tenha
um carro bastante similar. O carro do vizinho fica supervalorizado
na mesma intensidade que ele desvaloriza o seu próprio
carro.
Vemos claramente que o problema não está
na qualidade ou valor dos carros, mas sim, na sistemática
desvalorização do carro que é dele.
A abordagem psicoterápica é focada em
resolver a auto desvalorização sistemática,
que pode estar acoplada a inúmeras dinâmicas
psicológicas de mundo interno.
Inveja Patológica:
É a inveja normal, de não suportar e tentar
destruir, o sentimento que o outro, supostamente tem,
ao usufruir de algo, que o invejoso não tenha
condições de usufruir. O que torna a inveja
patológica é quando o impedimento de usufruir
do invejoso está no seu mundo interno e não
no mundo externo. Dessa forma o invejoso patológico,
não consegue usufruir os privilégios ou
os sentimentos que ele identifica no outro, não
por uma impossibilidade real de mundo externo, mas sim,
por uma impossibilidade ditada por algum tipo de dinâmica
de seu mundo interno. Dessa forma a inveja é
desproporcional a situação real desse
indivíduo.
A abordagem terapêutica é o impedimento
interno de não se permitir determinados prazeres,
usando como justificativa, motivos inexistentes.
Voracidade:
É o desejo normal de receber e ter coisas, acoplado
a dinâmica interna de insatisfação.
O que torna patológico e desproporcional, esse
desejo normal de receber, é a insatisfação
que está acoplada. Dessa forma, por mais que
tenha ou receba, sempre é pouco e sempre quer
mais.
A abordagem terapêutica é tratar a insatisfação,
que pode estar ligada a inúmeras psicodinâmicas
internas.
Culpa Patológica:
É o sentimento normal da culpa, que leva ao arrependimento
vinculado a uma psicodinâmica interna de auto
acusação. Tem um acusador interno que
faz com que o indivíduo se sinta culpado de forma
desproporcional às agressões cometidas.
A abordagem terapêutica é identificar e
tratar esse acusador interno.
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| Bibliografia: |
Dias, Victor R. C. Silva e colaboradores
|
| Psicopatologia e Psicodinâmica
na Análise Psicodramática |
| Volume III |
| Editora Àgora, 2010
(no prelo) |
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